


Gustavo Leme (editor). Hoje literário, amanhã fotográfico, semana que vem preguiçoso, mês passado criativo, de manhã um vagabundo, vez ou outra toca piano, mas pra sempre jornalista. Sempre!
Thiago Cury Luiz. Ser inovador não é ser do contra. É ser dos que realmente precisam do poder a nós, jornalistas, delegado. É ser não só vermelho, mas de todas as cores, ou mesmo só a veracidade do preto no branco.
Rodolfo Viana. Nosso "ombudsman dos outros". Contra-indicado para pessoas que não prezam a beleza do silêncio, das frases bem escritas, das sutilezas da língua, dos clichês, anões emo, símios que batem pratos ao ouvir "smells like teen spirit" e baratas voadoras de qualquer nacionalidade.
e mais...
O dia em que encarei o monstro
Por Thiago Cury Luiz
Esta semana, pela primeira vez trabalhei em uma redação. Tive vontade de berrar, chorar, de sair correndo. É o choque inicial entre teoria e prática. Natural que as coisas não se desenrolassem fácil e naturalmente.
Mas foi só o primeiro dia. Comecei a levar em conta o quão complicado é ficar desempregado, mesmo que daqui a alguns dias eu volte a ser um. Uma capacidade em potencial inutilizada, o ócio, a não contribuição. É o que acontece com o jornalista encostado. É o que acontece com o profissional que não atua. É o que acontece com o bando brasileiro que está desempregado.

Thiago e amigos na época da "facul"
Na faculdade, tudo é superado, ainda que seja feito a duras penas. Mesmo assim, o trajeto é relativamente fácil. Mas o reconhecimento vem só após os quatro anos. Durante, são reclamações e “chororôs”. É a burrice sendo escancarada por quem deseja ser burro, em vez de engolir livros, consumir conhecimentos, adquirir sabedoria.
Talvez seja esse o causador do desespero no primeiro emprego – isso quando ele vem. Na faculdade, nos portamos como crianças mimadas e o ambiente parece estar sempre a nosso favor. No trabalho, não. Nada é dado de mão beijada. Quanto mais você chora, menos se consegue, mais distante se fica da afirmação no emprego.
Esses primeiros meses pós-facul não são fáceis. Ainda sinto falta das situações agradáveis e, até pouco tempo atrás, todos os domingos, acordava órfão de uma festa de formatura. A nossa foi tão magnífica, que, no dia seguinte, tudo o que compunha o meu cotidiano estava fora de ordem. Era um anacronismo inexplicável. Uma tortura conseqüente do melhor proveito que poderia ter extraído na universidade, seja no contato com amigos, seja no trato com o próprio jornalismo.
Nem sei se a vaga nesse emprego será minha. Talvez nem seja. Ainda que a brincadeira tenha acabado, percebo que a seriedade é o melhor modo de se levar a vida numa boa, conquistando objetivos e curtindo os bons momentos.
A visita de Zidane ao Brasil
Por Thiago Cury Luiz
Confesso que, ao ver Zidane pisando em solo brasileiro, senti saudades. Mas foi um gênero nostálgico distinto do mais convencional. Geralmente, temos saudades do que já vivenciamos, presenciamos.
A falta que me acometeu foi outra. Senti saudades de tudo aquilo que talvez pudesse ter acontecido, mas nunca se consumou. Lamentei muito Zidane não ter desfilado nos gramados brasileiros. Ver Zinedine atuar no Maracanã, ou em qualquer outro grande palco nacional, independente do uniforme a ser vestido, teria sido o máximo, o ápice para a torcida verde-amerelo, a maior amante do futebol.

Zizou em visita ao Brasil
Zidane não foi, apenas, três vezes eleito o melhor jogador do mundo. A FIFA elege seus preferidos todos os anos. Zizou, como é chamado carinhosamente pelos franceses, é diferente de todos os outros atletas, inclusive dos que já conquistaram a Bola de Ouro.
Zidane não tem inimigos, rivais. Ele é o ponto em comum entre a perfeição do futebol e a classe que os grandes jogadores têm. Zinedine seria capaz de jogar 90 minutos de tempo regulamentar, mais 30 de prorrogação e enfrentar uma tensa disputa por pênaltis, sem sequer riscar o uniforme com um arranhão de terra ou tingi-lo com o verde da grama. Dessem-lhe um terno, e a vestimenta sairia intacta, direto para o armário.

O magnífico, o deslumbrante, o fabuloso. O Zidane.
Zidane é o sossego para a bola. Quando a redonda chega aos pés do craque, após minutos intermináveis de maus-tratos, ela respira aliviada. O jogo, que atualmente é disputado no chão – com pernas-de-pau sedentos por carrinhos, trombadas e distribuindo fartamente péssima qualidade técnica –, com Zidane teve seus melhores momentos. Com muito estilo, Zizou, freqüentemente em pé, bailava e flutuava pelos campos mais nobres. Nas poucas vezes em que precisou fazer movimentos bruscos – cair ou pular – as fez de maneira bela.
Zinedine Zidane. Um gênio da bola. Contra o Brasil, transcendeu o status de sábio: foi magnífico, deslumbrante, fabuloso. Se Zidane fosse brasileiro, talvez não adquirisse tanto reconhecimento. Por atuar do lado de lá, Zizou ganhou características intocáveis. E que bom que assim aconteceu. Merecidamente, Zidane nunca deixará de ser Zidane.
No guache do Tietê,
mais água e menos cocô
Por Rodolfo Viana
Eu ainda tinha uma vida inteira pela frente e toda uma cabeleira de fios claros quando comecei a estudar pintura. A sala-estúdio ficava numa garagem; a professora, cujo nome me fugiu à cabeça (bem como os tais fios loiros), era uma senhora enrugada e paciente. Dispensava sua calma não apenas comigo, o único ali com menos de dez anos, mas também com os jovens e adultos e velhos que usavam o pincel errado, escolhiam a cor desbotada, tinham uma noção tortuosa de perspectiva e um senso desfocado de luz e sombra.
Eu fiz peixes. E flores. E borboletas. Não fiz o que, de fato, queria naquela época, afinal “não, Rodolfo, não pode pintar esses tais Thundercats, He-man etc.” Enquanto Edvard Munch pinta A criança doente e escandaliza o público na Exposição de Outono de Oslo, eu causo repulsa em minha professora com a leviana sugestão de pintar o rubro-negro Gorpo. A mediocridade é uma obra-prima às avessas.

Rio Tietê em São Paulo
Meu gosto por pintura e minha nostalgia se aguçam ao ler textos sobre arte, como este de Gilberto Dimenstein. No caderno Cotidiano, da Folha de S. Paulo de hoje (e aqui para assinantes do jornal on-line ou da UOL):
O rio Tietê vai até Londres
A beleza dos mestres da pintura vai ajudar os alunos a ver com outros olhos a feiúra do Tietê dentro da cidade de SPUm grupo de 21 jovens da favela de Paraisópolis começou a percorrer, neste mês, o rio Tietê para levá-lo para bem longe de São Paulo -mais precisamente até o Tâmisa, o rio que passa por Londres. "A descoberta do Tietê está virando uma aventura", afirma a professora de artes plásticas Márcia Anaf, coordenadora da expedição.
É uma aventura que passa pela China, pela África do Sul, pelo Egito e pela Inglaterra, onde, ao mesmo tempo em que o grupo de Paraisópolis descobre o Tietê, jovens daqueles países aprendem sobre os rios que cortam suas cidades -os estudantes do Cairo, por exemplo, pesquisam sobre o Nilo.
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Formada em matemática com especialização em design industrial, Márcia Anaf, professora da Faap, dá aula de artes na Escola da Comunidade, na qual quase todos os alunos são moradores da favela de Paraisópolis -essa escola é gratuita, mantida pelo Colégio Visconde de Porto Seguro.
O governo britânico convidou a escola a entrar nesse projeto, batizado de "Rios do mundo", e estabeleceu o desafio: o aprendizado deveria se converter numa peça de arte, a ser exposta no Festival do Tâmisa, em setembro, quando, durante dois dias, ocorrem as mais diversas apresentações culturais, tudo às margens do Tâmisa.
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A partir da internet, forma-se uma rede hidrográfica virtual, unindo esses jovens espalhados pelo mundo, cada qual trocando suas descobertas -os rios devem servir de canal para que se discutam questões ecológicas, sociais e econômicas. “O que vamos fazer, depois, é tornar essa experiência um projeto coletivo de arte, a ser exposto em gigantescos painéis.” O governo britânico está oferecendo também a ajuda de arte-educadores do Masp. Na aula prevista para hoje, os estudantes iriam ser apresentados a reproduções das telas de Van Gogh, Turner e Monet para ver como pintaram paisagens da natureza, especialmente os rios. Ainda neste mês, serão também apresentadas as marinhas do brasileiro José Pancetti.
"A sujeira do rio será o pretexto para que os alunos viajem pela beleza dos mestres da pintura."
Mas a proposta dela é que, além de fazerem associações com as mais diferentes matérias como história, geografia e ciências, os alunos sejam estimulados em sua criatividade.
Por isso, as aulas vão tirar proveito do próximo projeto do artista plástico Eduardo Srur, que planeja colocar nas margens do Tietê imensas garrafas plásticas coloridas. Há alguns meses, Srur, que tem o hábito de fazer da cidade o cenário de suas obras, colocou, no rio, bonecos remando em canoas.
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A beleza dos mestres da pintura vai ajudá-los a ver com outros olhos a feiúra do Tietê dentro da cidade de São Paulo. Uma feiúra que ressalta em comparação com o Tâmisa, agora limpo. Tão limpo que, há pouco tempo, uma baleia entrou em suas águas.
A decepção estética não vai estragar essa troca de imagens em que o Tietê vai até Londres -e Van Gogh até Paraisópolis.

Neste escrito de Dimenstein, porém, a arte me chamou menos atenção. Outra coisa me prendeu. O texto sai numa época interessante: três dias antes do Dia Mundial da Água [22 de março] que, neste ano, tem como tema o saneamento básico. Instituída em 1993 pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), de acordo com as recomendações da Eco92 – Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a homenagem busca a mobilização global em torno da preservação dos recursos hídricos.
A temática 2008, lançada pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), mostra-se pertinente no Brasil, onde não mais que 54% dos domicílios contam atualmente com a coleta de esgotos, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), vinculada ao Ministério do Meio Ambiente. O despejo arbitrário de detritos nos mananciais degrada as fontes hídricas de maneira a causar preocupação: dados da ONU indicam que, para cada mil litros de água consumidos pelo homem, outros 10 mil são poluídos.
O problema está na falta de informação, o que impede a sociedade de tomar providências e exigir melhorias. A população não sabe de onde vem a água que bebe nem para onde vão seus dejetos. Não podemos ignorar que a água vem sendo priorizada pelas gestões públicas desde os anos 70; o saneamento, porém, não tem recebido a mesma atenção.
Hoje, que me pego adulto no espelho - um Rodolfo com menos fios claros na cabeça -, sei que posso pintar o Gorpo ou o Wilykat quando bem desejar, e não mais borboletas bisonhas. O problema vai ser quando eu quiser pintar peixes.
UM MERGULHO NA LAMA |
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A arte da imitação sem graça...
Por Thiago Cury Luiz
Diria o filósofo: “O futebol imita a vida e vice-versa”. E talvez não exista um país no mundo em que a assertiva se confirme tanto, como no Brasil. A sociedade se apropriou do evento disputado entre quatro linhas e sobre o nobre tapete verde para triunfar perante os olhos do mundo. Para os mais otimistas, vencer jogos, disputar finais de campeonato e conquistar Copas é uma maneira de se sobressair diante das grandes desgraças que costumam acompanhar o brasileiro no dia-a-dia.
Todo esse cenário, ornamentado pelos mais diversos personagens, dá ao futebol ares de um gênero real, e não mais fictício. A irrelevância do futebol é tanta, se olharmos sob o ponto de vista do desenvolvimento sócio-econômico do país, que tal esporte rompeu as barreiras do mero desenrolar dos jogos e das séries invictas, para se transformar em principal pauta dos debates interpessoais e ser característica inerente ao enredo da vida.

Os jogadores – muitas vezes – prestam-se a imitar o que de pior existe no contexto social: dançam coreografias paupérrimas e pornográficas e fazem de conta que são atiradores malucos, incitando, ao menos indiretamente, a reprodução de atos obscenos e lamentáveis pela imensa e fanática torcida brasileira. Na verdade, ocorre um ‘dois-toques’ muito bem orquestrado, que dispensa ensaios e ajustes do técnico. Há uma auto-implementação de uma ‘tabelinha perfeita’, um ‘toco y me voy’ argentino. Instaura-se a mediocridade.
A pobreza intelectual disseminada pelo grosso da cultura(?) nacional é, ao mesmo tempo, a causa e o reflexo dos anseios do povo. As eternas modas de viola, os grandes clássicos da MPB, o Hip Hop e até as letras ácidas do nosso Rock dos anos 70/80 deram lugar a uma incômoda dissonância. Barulhos atravessados são aplaudidos. Comemoram-se as peripécias mais abomináveis dos estádios, que vão de danças descompassadas a assassinatos a sangue frio.
Porque a gente não veio até aqui pra desistir agora
Por Gustavo Leme
Fui a um sebo transformar meus trocados em mais conhecimento. Entre fungos e espirros creio ter adquirido algo precioso. Pela bagatela de R$8 comprei Fórmula 1: O circo e o sonho de Nice Ribeiro, repórter e aventureira.
Não que eu esteja me aproveitando do gancho do início da temporada de Fórmula 1, mas aproveito do livro pra dar início à temporada laboriosa de focas recém tiradas do forno, ainda quentes pelo ímpeto e gana de juventude, ainda não tão rijos como um jornalista “macaco velho”. Ainda nem cheguei na metade do livro da Nice Ribeiro, mas a introdução que ela dá a sua obra é a introdução que dou ao blog, à agência, ao que foi nosso Assuntando no quinto termo da faculdade. Citando o começo de sua carreira:
“(...) precisei contar com elementos muito mais importantes para o trabalho de reportagem: garra, vontade e determinação. E, ainda, amor pela informação nova, capacidade de comunicação oral e escrita, desinibição para enfrentar situações difíceis (...) São incontáveis qualidades que pesam mais, para o jornalista, do que um diploma. Na melhor das hipóteses, eu diria que um diploma não atrapalha”.
Para os que querem o bom proveito do diploma, continuamos com a turma a todo vapor neste blog, neste projeto, neste espaço inserido num infinito desconhecido. Esta é a décima primeira turma de Jornalismo da Universidade de Marília, ou o que sobrou dela, num ponto de encontro, num ponto em comum, num ponto a mais desse universo de diárias P1 e P2.
Agora apressem-se, jornalistas! O mundo começou faz tempo...
"Jornalismo é o ato de contar a uma parte da sociedade o que a outra parte está fazendo."
(Heródoto Barbeiro)
agência onze = aonze = a¹¹
Portfólio jornalístico e artístico dos graduados da décima primeira turma de Jornalismo da Universidade de Marília (ou de quase todos). Tudo que for escrito ou mostrado aqui está protegido pelas leis de copyleft e, se reproduzido, deverá ser dado fonte e crédito ao pai da obra. Esse blog seria saudosista se não fosse cômico ou trágico pelo simples fato de inventar uma reaproximação.
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